Centro de Referência da Capoeira Carioca

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DISCOS

 

    Hoje, com a facilidade da gravação digital que desbancou os caros e complicados processos da gravação de discos e de fitas cassete, temos várias centenas de "CD de Capoeira" disponíveis no mercado.
    A maioria é de grupos de capoeira, ou compositores, sem grande talento e, nem mesmo, grande conhecimento de capoeira e sua música.  Mas nem por isso devem ser desprezados: estes CDs "amadores" são a legítima expressão artística de um mestre, ou professor, e seus alunos, ou amigos.

    Mas até 1970, aproximadamente, poucos capoeiristas conseguiram  romper a barreira de gravar um "disco LP (long play)" - um bolachão preto de uns 30 cm. de diâmetro - num "estúdio de gravação" de sofisticada tecnologia (para a época) e, depois, ter seu disco "prensado" e vendido, seja no circuito comercial, seja no (pequeno) circuito das academias de capoeira da época.
    Alguns destes discos LPs tornaram-se "clássicos", são itens de "colecionador" disputados no tapa, e são referência até hoje.

    Nos cinco "LPs" que, a seguir, apresentamos, e comentamos, temos um vislumbre da variedade que compunha o universo da capoeiragem de Salvador, apesar de todos  terem alguns pontos em comum: eram negros ou mulatos de baixa escolaridade - alguns eram semi-analfabetos -, com uma grande capacidade de liderança e, cada um a seu jeito, enorme carisma
    - Mestre Caiçaras, representante temporão da capoeira dos "valentões e disordeiros" que dominaram a capoeira baiana nas primeiras décadas dos 1900s.

    - Camafeu de Oxóssi, imbricado no candomblé, no samba de roda, na vida cultural afro-brasileira, era, também, um astuto e competente homem de negócios que acabou sendo proprietário de um dos dois grandes restaurantes do Mercado Modelo.

    - Mestre Pastinha, o mais famoso e longevo dos "angoleiros", tornou-se um lider devido a sua visão, carisma, persistência e capacidade de organização.  Foi o "filósofo da capoeira" e deixou uma forte linhagem, atuante até nossos dias.

    - Mestre Traíra, conhecido por ser exímio  capoeirista, não deixou alunos, nem linhagem.  Em Traíra e Cobrinha Verde - um dos que o acompaham no disco -, o que fica mais evidente é a força do grupo e do ritual, acima das individualidades dos componentes.

    - Mestre Bimba, criador da "capoeira regional", a partir dos 1930s, foi o vetor seminal da "era das academias" (após a escravidão e a marginalidade).  Bimba ficou conhecido como lutador (campeão invicto no famoso torneio de 1936) e. também, por seu enorme carisma, e sua inteligência e visão intuitivas que o permitiu criar a base da metodologia de ensino da capoeira contemporânea.  O que seu disco nos revela é uma faceta pouco comentada do "gigante negro": um artista maduro, completo e cheio de suíngue.

 

    Vejamos, então os cinco discos Lps, "clássicos" da capoeira:

 

"Mestre Caiçaras, o dono das ruas"


 

    - ACADEMIA DE CAPOEIRA DE ANGOLA SÃO JORGE DOS IRMÃOS UNIDOS DO MESTRE CAIÇARAS.
AMC, São Paulo, AMC LP. 5032-A. Sem data. Lado A: 5 faixas,: lado B: 7 faixas.
    Mestre Caiçaras (Antonio Conceião Moraes), "o dono da capoeira de rua", com sua impressionante voz, grave e profunda, dá o tom do disco.
    O vozeirão de Caiçaras ressoa como o dos possantes cantores  de ópera; tanto pelo volume, quanto pela afinação, assim como um natural e orgânico exibicionismo.  Na música brasileira, seria o equivalente de um Orlando Silva - "o cantor das multidões" -, um Cauby Peixoto, ou um Nelson Gonçalves, que dominaram o cenário da música e do rádio com seus vozeirões até aproximadamente 1960, quando foram finalmente desbancados pela Bossa Nova com seus cantores de voz baixinha, suave e "intimista" como João Gilberto, Nara Leão, Tom Jobin, Vinicius de Moraes, etc.  - influência do jazz norte-americano e seus cantores cool, tipo Chet Baker.
 

 

    - BERIMBAUS DA BAHIA - CAMAFEU DE OXÓSSI.
    MusiColor, São Paulo, LP. 1.04-405.016. 1967.
    Camafeu era uma figura muito conhecida e estava profundamente imbricado na vida cultural e social afro-baiana - o candomblé, o samba de roda,as festas de largo, o Mercado Modelo onde tinha um restaurante.  Camafeu fazia umas firulas de capoeira e tocava berimbau mas nunca foi  um "capoeirista".  É um exemplo interessante de algo que gradativamente desapareceu: um homem que tinha afinidades com a capoeira simplesmente porque a capoeira, como outras manifestações da cultura negra, fazia parte do contexto e do tecido social no qual vivia; da mesma forma que algumas pessoas jogam uma "pelada" de futebol com os amigos, aos sábados, sem serem "jogador de futebol

 

"Mestre Pastinha, o filósofo da capoeira angola"


 

    - CAPOEIRA ANGOLA - MESTRE PASTINHA E SUA ACADEMIA.
    Philips, Bahia, SCDP - PF - 001/GB. R. 765.097L. Sem data.
    O som vai rolando e, eventualmente, entra a voz de mestre Pastinha (Vicente Ferreira Pastinha, 1889-1981) - que, na época, devia ter uns 75 anos - contando "causos", falando do passado, do presente (daquela época), de suas esperanças e de sua "filosofia".  Um disco verdadeiramente emocionante.

 

"Desenhos de Nestor Capoeira baseados nas fotos do disco de Traíra e Cobrinha Verde"


 

    - CAPOEIRA - DOCUMENTOS FOLCLÓRICOS BRASILEIROS - 2.
    Ed. Xauã, Rio de Janeiro. Sem data.
    Com mestre Traíra e convidados, incluindo Cobrinha Verde.
    Um lindo disco, despojado e sincero; mas com  um acabamento gráfico sensacional.  Com o  disco, vinha um encarte com fotos fabulosas (de Mario Cravo?), e um texto de Dias Gomes - que mais tarde ficou mais famoso ainda, com suas telenovelas na TV Globo:

    "Capoeira é luta de dançarinos.  … dança de gladiadores.  … jogo de camaradas.  … jogo, é bailado, é disputa - simbiose perfeita de força e ritmo, poesia e agilidade.  Única em que os movimentos são comandados pela música e pelo canto.  A submissão da força ao ritmo.  Da violência à melodia.  A sublimação dos antagonismos...  Na Capoeira, os contendores não são adversários, são 'camaradas'...  Acima do sentido de competição, há um sentido de beleza... O capoeira é um artista e um atleta, um jogador e um poeta."


 

"Mestre Bimba, o precursor da capoeira contemporânea"


 

    - CURSO DE CAPOEIRA REGIONAL - MESTRE BIMBA.
    JS Discos, Salvador JLP.101.  Sem data.
    Um disco sensacional, com uma capa super-moderna para a época: dois jogadores desenhados com motivos geométricos.  Com o disco, vinha um livreto - o mesmo nome do  disco, e o mesmo desenho - que continha uma "Apresentação"; o "Regulamento" da academia de Bimba; a "sequência" e a "cintura desprezada" (o núcleo do método de ensino de mestre Bimba), tudo ilustrado por uma série de desenhos.
    A leitura do "Regulamento" - "... você ira praticar EDUCAÇÃO FÍSICA  e adquirir um preparo físico básico.." - não prepara o leitor desavisado para o choque do som de Bimba (Manuel dos Reis Machado, 1900-1974).  Apenas um berimbau, com     Bimba tocando e cantando, acompanhado de dois pandeiros e um arrepiante coro feminino vindo do candomblé (uma inovação genial que dá o maior contraste).  De um lado do disco, apenas o instrumental com os geniais "toques" (ritmos) que mestre Bimba criou para sua "Capoeira Regional" - iúna, cavalaria, amazona, são bento grande (da regional) etc.; do outro lado, Bimba toca e canta com uma voz impressionante -  profunda e poderosa (mas sem elevar o "volume" como Caiçaras ou os cantores de ópera), descontraída, cool, cheia de suíngue -; o retrato sonoro de um artista completo (que era, e até hoje é, conhecido principalmente apenas por seus dotes de lutador, e por ter criado a capoeira regional, "mais eficaz e objetiva").

 

"Mestre Leopoldina, o último malandro  da Velha Guarda carioca"


 

    No entanto estes mestres são todos baianos e, mais especificamente, atuavam na cidade de Salvador no período que vai, aproximadamente de 1930 a 1980.
    No Rio de Janeiro, o expoente da música de capoeira - cantor e compositor - é indiscutivelmente mestre Leopoldina (Demerval Lopes de Lacerda, 1933), que começa a brilhar em 1960 e vem até os dias de hoje.

        Para maiores detalhes sobre estes importantes mestres, ir até a página "História/Filsofia"; e, no final da parte "pesquisa", clicar nos capítulos 2.1.5 e 2.1.6 da tese de doutorado de mestre Nestor Capoeira (ECO-UFRJ, 2001), que enfocam os períodos 1930-1950 e 1950-1970.